Quando olhava para o carro do patrão, um tremendo Mercedes com lugar reservado para estacionar, João sentia-se um João Ninguém. Aos 40 anos de idade, ainda era obrigado a usar o transporte coletivo porque nem crédito tinha para comprar um carro a prestação.
No trabalho também se considerava um fracassado. Colegas que tinham entrado para a firma depois dele já estavam ganhando muito mais e tinham cargos melhores.
João estava na mesma firma havia 22 anos e, embora agradecesse a Deus por ter um emprego estável, não gostava muito de estar ali e, diversas vezes, tinha procurado mudar de empresa. Em outros lugares poderia ganhar mais e ter outras vantagens, mas nunca tinha tido sucesso nas várias entrevistas que fizera. Esse era outro motivo para sentir-se um fracassado.
Morava longe do trabalho e, por isso, tinha de levantar muito cedo para encarar a fila do ônibus. A viagem até a firma levava quase uma hora e, na maior parte das vezes, João já chegava cansado para trabalhar. Mas era sempre o primeiro a chegar, e o que tinha a mesa mais organizada.
Ao contrário da maioria dos colegas, João trabalhava sério. Não ficava fofocando com os colegas, nem vivia parando o dia todo para tomar um cafezinho daqui e outro dali. Mas sentia-se um fracassado até nisso, porque não sabia como os colegas conseguiam dar conta do que faziam. Ele nunca parava, estava sempre dando duro e, ao final do dia, ainda tinha coisas para fazer.
Sempre trazia seu lanche de casa. Não tinha dinheiro para gastar na cantina da firma e preferia não usar o vale refeição. Achava-se um fracassado porque, em geral, todos os colegas iam almoçar fora, iam em turmas e se divertiam muito nos longos almoços de mais de duas horas. Ele, não. Só parava alguns minutos para comer seu lanche e ia tomar um cafezinho na copa, antes de voltar ao trabalho.
O período da tarde era sempre o mais difícil, porque era depois do almoço que os colegas preferiam reunir-se para seus bate-papos. A conversa dos outros atrapalhava o seu trabalho, mas João não tinha autoridade para impedir isso. Afinal, não era chefe nem nada. Era só mais um naquela sala.
Apesar de nunca parar para conversar, nem para os longos cafezinhos e deixando de trabalhar apenas alguns minutos todos os dias para almoçar, João era sempre o último a sair. Alguma coisa lhe dizia que isso acontecia porque os outros eram mais inteligentes e mais eficientes do que ele.
Todos os outros tiravam proveito das coisas da empresa. Uns faziam longas chamadas interurbanas no telefone da firma, outros levavam para casa tudo que conseguiam pegar escondido, e outros ainda usavam sua posição na firma para beneficiar-se lá fora, de um modo ou de outro. João também se sentia um fracassado porque não tinha coragem de fazer isso.
Sentia-se um fracassado também quando deixava o prédio da firma e passava pela padaria da esquina, onde a maior parte dos seus colegas tomava sua cerveja diária, no meio do papo mais alegre do mundo. João não tinha dinheiro nem tempo para isso. Tinha que encarar o ônibus lotado para chegar logo em casa e ajudar a mulher a cuidar dos filhos, preparar o jantar e lavar a louça.
Uns dias antes de completar seu 41º. aniversário João ficou sabendo que a empresa tinha sido vendida para um grupo estrangeiro. Começou a aparecer gente diferente na firma e vieram até uns franceses que ficaram algumas semanas e foram embora. Nesse período, o panorama geral da firma também mudou. Os colegas deixaram de fazer as longas pausas para o café, cortaram pela metade a parada para o almoço e os longos papos da tarde também acabaram. Mas, dois meses depois, tudo voltou ao “normal”: muitas paradas para o café, longos almoços de mais de duas horas, muito papo à tarde e, o trabalho mesmo, era só João quem fazia.
Três meses depois que a firma foi vendida, começaram as demissões. Primeiro foram dois, depois mais três, outros dois, mais cinco e assim por diante. João ficou apavorado. Quando chegaria sua vez? Ele se considerava o menos capacitado de todos ali, e tinha certeza de que também seria demitido. A nova chefia vivia observando tudo e acabaria descobrindo que ele não servia mais.
Pouco a pouco, todo o pessoal foi renovado. Não sobrou sequer um dos seus colegas. Os conversadores, os especialistas em “fazer cera”, os que demoravam mais para almoçar, esses foram os primeiros a receber o bilhete azul. E cada um que saía vinha provocar João, dizendo que ele seria o próximo, porque era o mais lento para fazer tudo. Mas João continuou ali.
Seis meses se passaram e a empresa foi crescendo com o novo pessoal. Os novos contratados eram como ele: ninguém conversava à toa, o almoço era rápido, o trabalho era intenso.
Um dia, pouco antes de terminar o expediente, o chefe mandou chamá-lo. João sentiu um calafrio. Que iria fazer sem aquele emprego? Como conseguir trabalho em outro lugar, se tantas vezes havia tentado nas empresas concorrentes e nunca tinha tido sucesso? Como iria explicar à mulher e aos filhos a sua demissão? João lembrou-se dos colegas que haviam sido demitidos antes dele e pensou em tudo que cada um deles havia dito, ao se despedir. Eles tinham razão. João era mesmo um fracassado que, agora, estava num beco sem saída, sem emprego e sem qualquer perspectiva de conseguir outro trabalho.
Ele entrou e o chefe mandou fechar a porta. João sentou-se, e o chefe foi falando:
– A empresa fez um levantamento de seu histórico aqui e decidiu fazer algumas mudanças. A partir de amanhã, você não irá mais usar aquela mesa, nem trabalhará no salão com os demais. – João sentiu as pernas tremerem, sua barriga gelou, e a vista escureceu. E o chefe continuou: – Ficou decidido que você será o supervisor geral do seu setor, terá sua própria sala e um aumento de 30% em seus vencimentos. Foi considerado o melhor funcionário e, por isso, vai receber um carro da firma para seu uso particular e também terá seu telefone celular, com a conta paga pela firma…
Houve uma festa uma semana depois, na qual a empresa prestou uma grande homenagem ao seu melhor funcionário, o que nunca parava para conversar, almoçava sem deixar sua mesa, nunca faltava ao trabalho, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair todos os dias.
Finalmente, João entendeu que não era um fracassado. Na verdade, dentre todos aqueles com quem tinha trabalhado durante mais de duas décadas, tinha sido o único bem sucedido. Sua paciência e dedicação acabaram sendo reconhecidas e recompensadas, e João começou a sentir-se outra pessoa. Mas uma coisa ele sabia que não podia mudar: ele devia continuar sendo humilde como sempre fora, trabalhando honestamente, sem roubar, sem mentir, sem enganar.
Além do mais, João sabe que não existe alguém que possamos considerar um fracassado. Há aqueles que têm menos do que outros e os que lutam a vida toda e não conseguem chegar exatamente onde queriam. Mas o fracasso não se mede por aquilo que temos ou o que nos falta. O fracasso se mede pelo tamanho da luta. Mesmo que você não lute e se entregue, não pode considerar-se um fracassado porque, afinal de contas, não lutou.
Você, que lê esta mensagem, está representado nesta história. Faça um exame de consciência e diga com sinceridade: será que você é como João, ou como todos os outros? Cuidado! A empresa onde você trabalha pode ser vendida a qualquer momento…
Tenha uma semana de alegrias e Deus abençoe!
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