Rui Barbosa escreveu e ainda está escrito:
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
Não, eu não me envergonho de ser honesto. Em vez de vergonha, eu sou tomado de uma pena e desprezo muito grande por aqueles que representam as nulidades, as desonras, as injustiças, e as maldades. Eles não merecem a minha vergonha; só mesmo a minha pena e meu desprezo.
Desprezo o pobre de espírito que se acha grande e poderoso só porque tem um carrão importado e uma casa maravilhosa.
Desprezo o mentiroso, que vai pela vida pensando que engana a todos e que, no fundo, só consegue enganar a si mesmo.
Desprezo o governante que, em vez de administrar, passa cada minuto das 24 horas de seu dia imaginando esquemas que lhe permitam roubar e enriquecer cada vez mais e que tem a petulância de chamar a isso de "política".
Desprezo o legislador que, eleito graças às suas promessas vazias, vende seu voto e sua alma a quem der mais, legislando sempre em benefício próprio.
Desprezo o magistrado que se julga dono da lei e a manipula de todos os modos, tirando proveito dela sempre que pode.
Desprezo o funcionário público que faz da sua vida um lamaçal de propinas e troca de favores.
Desprezo o comerciante que vende produtos pirateados, contrabandeados, estragados e vencidos.
Desprezo o empresário que usa seu dinheiro para comprar políticos, fiscais, policiais e juízes.
Desprezo o patrão que explora o empregado.
Desprezo o empregado que rouba do patrão.
Desprezo o covarde que agride mulheres e crianças e que se acha no direito de abusar daqueles que domina.
Desprezo o/a “artista” sem talento, que vende o corpo e abre mão de sua integridade, sujeitando-se a todo tipo de sujeira para alcançar a fama e ganhar dinheiro.
Tenho pena de toda pessoa que explora o pobre, que pisa sobre o fraco, que ri do maltrapilho, que nunca ajuda seu semelhante.
Tenho pena de toda pessoa que acha que o sucesso é o mais importante e que mede o sucesso pelo tamanho de sua riqueza.
Tenho pena de todo aquele que sonega impostos, alegando que faz isso para não ser roubado pelos corruptos.
Tenho pena de toda pessoa que sabe da corrupção, das sujeiras e mazelas e nada faz para acabar com elas, limitando-se a rir da desgraça nacional e votar sempre nos mesmos crápulas e mentirosos.
Não, eu não me envergonho, porque posso andar de cabeça erguida e olhar para o espelho com a maior sinceridade e dizer: sou honesto! E me conforto no ditado de que não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.
A morte é para todos: ricos e pobres, sinceros e mentirosos, bonitos e feios, gordos e magros, doentes e sadios, inteligentes e imbecis, homens e mulheres, pais e filhos, governantes e governados, juizes e advogados, livres e encarcerados… Meu dia chegará e pode estar perto. Mas eu sei para onde vou e com Quem vou me encontrar. Você sabe? Tem certeza?
Nenhum comentário:
Postar um comentário