Desembarquei do Boeing 747 da Pan Am no aeroporto de Frankfurt, na Alemanha e fui logo tirando o passaporte da bolsa, para mostrar às autoridades. Quando cheguei diante do guichê onde deveria apresentar meus documentos, o oficial alemão olhou sério e fez um gesto insistente com a mão, para que eu seguisse adiante, para a área de bagagem. Ele nem olhou para meu passaporte. Ninguém olhou.
Na área de bagagem, foi a mesma coisa. Peguei minha mala e saí do aeroporto, sem falar com ninguém nem mostrar documentos, nem abrir a bagagem na alfândega.
Faz tempo que aconteceu isso. Foi em 1976, e eu vinha de Nova York, a caminho da Áustria, onde ia transmitir o Grande Prêmio de Fórmula 1 daquele ano, um dos mais importantes da história, porque foi exatamente 15 dias depois do acidente quase fatal de Niki Lauda com sua Ferrari, em Nurburgring, na Alemanha. O comendador Enzo Ferrari ainda era vivo e causou um verdadeiro furor na Fórmula 1 quando, logo após o acidente de Lauda, lançou-se a procurar desesperadamente por um piloto para tomar o lugar do austríaco, porque não imaginava seus carros fora da pista na Áustria.
Minha chegada ao aeroporto de Frankfurt naquela sexta-feira deve ser lembrada como comparação ao que acontece hoje. Eu não precisei de visto, não mostrei o passaporte a ninguém e não tive minha bagagem revistada. Na partida de Nova York, no dia anterior, também não tive que enfrentar nenhuma revista e minha bagagem não passou pelo raio X. Se você já fez alguma viagem internacional, sabe como a coisa ficou complicada nesse aspecto.
E, se você não teve a alegria de voar com a Pan Am, nos áureos tempos daquela grande companhia, não sabe o que perdeu. Naquela viagem à Alemanha e em muitas outras que fiz em aviões dessa empresa, o lugar a bordo, mesmo na classe econômica (repórter de rádio e TV só viaja de classe econômica…) era muito mais espaçoso e confortável. Mesmo que o passageiro da frente inclinasse ao máximo o seu assento, ainda era possível relaxar, comer tranquilamente na mesinha do encosto da poltrona à frente e até cruzar as pernas. Era possível inclinar o assento quase até a horizontal, e dormir à vontade.
Até na nossa Varig o conforto era muito maior do que hoje em dia. Mas a Pan Am era uma empresa infinitamente maior e mais importante. Tão importante, na verdade, que foi a responsável pelo nascimento do avião que todos conhecemos como “Jumbo”, o Boeing 747. Em 1965 Juan Trippe, que era presidente da Pan Am, pediu a seu amigo Bill Allen, dirigente da Boeing, que produzisse um novo modelo de avião para sua empresa. Trippe especificou quantos passageiros queria transportar, a velocidade que o avião deveria ter, sua autonomia e até sua capacidade de combustível. Dessa colaboração nasceu o 747, cujo primeiro vôo comercial foi feito no dia 22 de janeiro de 1970, pela Pan Am, obviamente. O avião fez tanto sucesso que ainda hoje, 41 anos depois, é um dos mais procurados pelas empresas aéreas e pelos passageiros. Até agora foram produzidas mais ou menos 1.500 unidades do Jumbo, e um novo modelo, o 747-8 já começa a ser entregue às empresas aéreas, com inovações que certamente o manterão em uso durante muitos e muitos anos.
Tenho viagem marcada para Washington, DC, para o próximo mês de julho. Vou passar uns dias em visita à capital americana, com minha mulher, revendo todos os lugares que me acostumei a visitar durante muitos anos, a serviço do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Mas já estou me preparando psicologicamente para o verdadeiro “castigo” que vou ter que enfrentar, como enfrentam hoje em dia todas as pessoas que viajam de avião. Vou ter que ficar pelo menos uma hora na fila de espera para a rigorosa revista a que precisarei ser submetido no aeroporto. Depois, entrar num avião lotado e dar um jeito de me acomodar em uma poltrona estreita, num lugar onde quase não há espaço para meus joelhos. E vou pedindo a Deus que, na minha frente, não se sente algum egoísta que deita a poltrona para trás e tira ainda mais o meu já reduzido espaço a bordo. O voo sem escalas entre Miami e Washington vai durar só duas horas e meia, mas sei que vai ser uma provação. E, na volta, outra dose da mesma chateação. Dá até vontade de cancelar a reserva feita na American Airlines e ir de carro...
Não há dúvida: antigamente, viajar de avião era muito melhor, mais confortável e bem mais barato!
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